terça-feira, 18 de abril de 2017

A handout photo made available by Syrian Arab NewsA mãe de todas as hipocrisias

texto de Robert Fisk, tradução de btpsilveira

Abril de 2017 – Information Clearing House – The Independent – Falamos da mãe de todas as hipocrisias. Algumas crianças sírias mortas importam, penso. Outras não. Um assassinato em massa duas semanas atrás matou crianças e bebês e levou nossos líderes a mais justa indignação. Mas o massacre deste final de semana na Síria matou ainda mais crianças e bebês – e mesmo assim não gerou mais que silêncio daqueles que antes bradaram pela salvaguarda de nossos valores morais. Por que desta vez não?


Quando um ataque com gás na Síria matou mais de 70 civis em 04 de abril, incluindo bebês e crianças, Donald Trump ordenou um ataque com mísseis contra a Síria. O país aplaudiu. A imprensa também. Da mesma forma grande parte do mundo. Trump chamou Assad de “mau” e “um animal”. A união Europeia condenou o regime sírio. O governo britânico chamou o ataque de “bárbaro”. Quase todos os líderes ocidentais afirmaram que Assad deveria ser removido do poder.

Desta vez, quando um homem bomba atacou um comboio de refugiados civis nas proximidades de Alepo, matando 126 sírios, mais de 80 deles crianças, a Casa Branca manteve silêncio. Mesmo sabendo que o total de mortes foi maior, Trump não se lamentou nem mesmo no twitter. A marinha dos Estados Unidos sequer lançou um disparo simbólico na direção da Síria. A União Europeia se fingiu de tímida e não quis dizer nem uma palavra. Aquela conversa de “barbarismo” foi sufocada no ninho no governo britânico.

Será que ninguém no ocidente tem o menor senso de vergonha? Que insensibilidade terrível. Que desgraça. É ultrajante que a nossa compaixão seja direcionada, assim que percebemos que talvez este último massacre não mereça nossa compaixão e nossas lágrimas na medida que o massacre anterior merecera. Na realidade, não se derramou uma única lágrima para os 126 sírios – quase todos civis – que foram mortos nas imediações de Alepo, pois eram muçulmanos xiitas que estavam sendo evacuados de duas vilas em poder do governo (isto é, de Assad), no norte da Síria. O assassino era obviamente oriundo da Al Nusra (Al Qaeda), ou de um dos grupos “rebeldes” que nós, ocidentais, armamos – ou talvez ainda do próprio Estado Islâmico – e assim, esses mortos não são dignos de nossa compaixão.

A ONU, como sempre caindo pelas tabelas dos palcos mundiais, falou. O último ataque foi “um novo horror”. O papa Francisco chamou o ataque de “ignóbil”, e rezou pela nossa Síria “amada e martirizada”. E mesmo tendo sido criado por um pai eminentemente anticatólico, penso que os papas vão bem nestes assuntos, especialmente Francisco: “Bom e velho Papa”. Ora bolas, até mesmo o quase inexistente “Exército Sírio Livre” opositor de Assad até a medula, condenou o ataque como sendo “terrorista”.

E foi só. Passo então a recordar aquelas historinhas tão piegas sobre Ivanka Trump, uma mãe, especialmente chocada com os vídeos de Khan Shaykun, o lugar onde o ataque químico de 04 de abril, aconteceu, pressionando seu pai para que fizesse alguma coisa sobre a questão. Então foi a vez de Federica Mogherini, a “Alta Representante” da União Europeia para política de segurança e assuntos externos, que descreveu o ataque como “medonho” – mas insistiu que falava “antes de tudo como uma mulher”. Também certíssima. Mas o que aconteceu com todos esses sentimentos maternais – dela e de Ivanka – quando as fotos vieram do norte da Síria neste final de semana, de bebês aos pedaços e crianças enroladas em sacos plásticos negros? Silêncio.

Não restaram dúvidas sobre a deliberada, a crueldade vil do ataque de sábado. O homem bomba se aproximou dos refugiados com um carrinho de biscoitos para crianças e batatas fritas – aproximando-se de pessoas, devo acrescentar, que eram civis xiitas que estavam passando fome debaixo do cerco de rebeldes que se opõem a Assad – (e claro, que foram armados por nós). Mesmo assim, eles não contam. Seus “lindos bebezinhos” – estou citando Trump sobre o ataque anterior com gás – parecem não merecer nossos sentimentos. Por que são xiitas? Por que os culpados pelo massacre estão associados intimamente conosco, ocidentais? Ou porque – e aqui está o ponto – eles foram vítimas do tipo errado de assassino.

Tudo o que queremos agora é culpar o “mau”, o “animal”, o “brutal” Assad, que foi o primeiro “suspeito” de ter desfechado o ataque de gás em 04 de abril (cito nada mais, nada menos que The Wall Street Journal) e que em seguida foi rapidamente acusado pelo ocidente inteiro de total e deliberada responsabilidade pelo massacre com gás. Ninguém deveria questionar a brutalidade, a tortura e a massiva opressão do regime. Porém há, na verdade, sérias dúvidas sobre a responsabilidade de Assad pelo ataque de 04 de abril – que ele, previsivelmente, negou – mesmo entre árabes que odeiam de morte seu regime político Baathista e tudo aquilo que ele representa.

Até mesmo o escritor Uri Avneri, israelense de esquerda – que por um breve período de sua vida trabalhou como investigador – pergunta porque Assad cometeria esse crime justamente quando seu exército e seus aliados estavam vencendo a guerra na Síria, quando um ataque desse tipo com certeza causaria problemas para o exército e o governo russo, e quando poderia mudar as atitudes cada vez mais amenas do ocidente com ele, de volta para a opção de apoiar a queda de seu regime de governo.

A alegação do regime de Assad é que a Síria realmente realizou um ataque que explodiu um estoque de armas da Al Nusra em Khan Shaykun (ideia adotada também pelos russos), poderia ser facilmente negada se os (norte)americanos não tivessem usado precisamente a mesma desculpa para a morte de mais de uma centena de civis iraquianos em Mosul em Março; os EUA sugeriram que o bombardeio de um transporte de armas do Estado Islâmico pode ter causado a morte dos civis.

Acontece que isso nada tem a ver com o massacre muito mais sangrento que ocorreu no sábado, atingindo o comboio que se dirigia para o leste de Alepo. Estas vítimas faziam parte de procedimento padrão de troca massiva de reféns entre o governo sírio e seus oponentes, nos quais os oponentes sunitas das vilas cercadas pelo governo sírio ou seus aliados são mandados para Idlib e outras áreas em mãos dos “rebeldes”, garantindo em troca livre passagem para os habitantes xiitas daquelas vilas cercadas pelos “nossos” rebeldes, pela Al Nusra e pelo Estado Islâmico, que permitem que eles deixem as vilas em direção às áreas seguras das cidades sob controle governamental. Essas pessoas foram as vítimas do ataque de sábado pelo homem bomba; era xiitas das vilas de al-Foua e Kfraya, bem como vários combatentes governamentais, a caminho do que – para eles – seria a segurança de Alepo.

Se estes procedimentos constituem ou não uma maneira de fazer uma limpeza étnica, outra acusação dos inimigos de Assad, é um ponto controverso. O grupo Al Nusra não foi exatamente convincente nem se empenhou para que os habitantes de al-Foua e Kfraya ficassem na nos locais, porque tinha interesse na volta de seus combatentes que se encontravam cercados pelo governo nas cidades sob ataque do exército sírio. No mês passado, o governador de Homs solicitou aos sunitas que permanecessem na cidade, em vez de tomar os comboios “rebeldes” que demandavam Idlib. Mas estamos falando de uma guerra civil e esses conflitos lamentáveis dividem cidades e povoados por gerações. Basta ver o que acontece no Líbano, 27 anos depois do final da guerra civil que aconteceu naquele país.

Mas o que prova de uma vez por todas a nossa participação inegável nesta guerra imoral, injusta e aterrorizante é a nossa reação aos dois massacres de inocentes. Choramos e lamentamos e chegamos a desfechar um ataque com mísseis por causa daqueles “lindos bebezinhos” os quais acreditávamos terem sido vítimas do governo Assad. Mas quando os bebês xiitas, tão humanos quanto os sunitas, foram despedaçados neste final de semana, Trump não poderia ser mais indiferente. Já aquele espírito maternal demonstrado por Ivanka e Federica parece ter secado em seus espíritos.

E nós ainda temos a coragem de dizer que a violência no Oriente Médio nada tem a ver conosco.



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