segunda-feira, 1 de maio de 2017

Lamentar, trapacear ou comandar

Opções de Putin, ante a junta militar que governa os EUA 

11/4/2017, John Helmer, 
Dances with Bears, Moscou – tradução: Coletivo Vila Vudu.



Como governar um país que é alvo de guerra dos doidos que chefiam uma junta militar em outro país?


Não estou perguntando sobre as opções de Joseph Stalin em agosto de 1939, antes que ele e Adolph Hitler decidiram-se a favor de uma trapaça, para Stálin ganhar tempo, a qual ficou conhecida como Pacto Alemão-Soviético de Não Agressão. Tampouco estou perguntando sobre Bashar al-Assad e Síria, nem sobre Kim Jong-un e Coreia do Norte.



Essa é a pergunta que o presidente Vladimir Putin é obrigado a fazer, sobre as opções da Rússia ante um regime nos EUA no qual, como o Kremlin agora reconhece, instalou-se uma junta militar por trás do governo de fachada do presidente Donald Trump. "Os russos já vimos acontecer tudo isso antes", Putin 
declarou ontem.


O presidente continuou, e disse que ele próprio está entre dois caminhos, sobre o que deve ser feito, e lamenta ter de tomar a decisão. Por outro lado, segundo Putin, a junta militar nos EUA está preparando novas operações com o objetivo de escalar a guerra na Síria, e também a guerra contra a Rússia. "Temos informação de várias fontes, de que essas provocações (não encontro outra palavra) estão sendo preparadas também em outras partes da Síria, inclusive em subúrbios ao sul de Damasco, onde planejam plantar determinadas substâncias e acusar as autoridades sírias de as estar usando."


Por outro lado, Putin disse também, "estamos prontos com deixar isso andar um pouco, na esperança de que nos leve a alguma direção positiva baseada na interação. Há razões para isso, para consumo dentro dos EUA. Dito em termos simples, opositores do atual presidente ainda estão ativos e à espreita, e se algo acontecer, jogarão a culpa sobre ele. Quanto a isso não tenho qualquer dúvida."


Mas se Putin não tem dúvidas, por que não se decide sobre o que fazer e por que hesita tanto e não diz que hesita? Logo depois do ataque dos EUA contra a Síria, os Ministérios russos da Defesa e de Relações Exteriores rapidamente anunciaram os resultados de suas investigações, e também novas medidas políticas, incluindo o aviso de que deslocamentos militares dos EUA na Síria são agora alvos russos.


Putin diz menos que isso. "Essas coisas têm de ser exaustivamente investigadas. Planejamos nos dirigir à instituição competente da ONU, em Haia e requerer que a comunidade internacional investigue esses assuntos em profundidade. Então se poderá tomar uma decisão bem fundamentada, dependendo dos achados da investigação.

Embora não digam publicamente, o Ministério da Defesa, das Relações Exteriores, as agências de segurança e os serviços de segurança da Rússia todos sabem perfeitamente, desde o caso do ataque que derrubou o avião da Malaysian Airlines Voo MH-17 na Ucrânia em 2014 que essa opção leva a processos e tribunais de 'espetáculo', shows para 'comprovar' o envolvimento criminoso de russos, tanto nas 
ONU como nas cortes internacionais da Europa. Já aconselharam Putin a parar de propor qualquer estratagema ou outra impossibilidade. Ao falar de "opositores do atual presidente" e de "investigações internacionais", Putin estaria abrindo uma porta para indecisão, retirada e destruição. Isso Putin já ouviu como aconselhamento.


Para o presidente, são más notícias. Fontes bem informadas creem que Putin "não gosta de más notícias. E gosta ainda menos quando as más notícias chegam sob o formato de pressão para que decida alguma coisa. Então, Putin separou-se do noticiário e dos informes, e isolou-se de gente em que antes confiava para conversar. Hoje Putin tem menos pessoas as quais ouve, do que Stálin, em 1941. E Putin também não se decide."


As fontes que trazem essa avaliação acrescentam que Putin não tem a opção, que Stálin tinha, de compreender as intenções e as provocações de Hitler, ao mesmo tempo em que Stálin fingia que seria possível evitar a guerra e adiar o mais possível o dia de marcar dia e hora. "Stálin não tinha nenhuma esperança de que a Alemanha não atacasse a Rússia" – diz uma das fontes que fez a comparação. "Stálin sabia, tinha certeza de que a Alemanha atacaria. Mas Putin diz que espera que os EUA possam ser trazidos para negociar. Está convencido de que virão conversar."

 Esquerda: Min. Relações Exteriores Vyacheslav Molotov assina; atrás dele, o min. de Rel. Ext. da Alemanha Joachim von Ribbentrop, com Stálin à direita.


Direita:
 Stálin e von Ribbentrop, com o Chefe do Estado-maior Boris Shaposhnikov entre os dois. No momento em que escrevo, ainda não se sabe se Putin decidirá apertar a mão de Rex Tillerson, secretário de Estado que hoje visita Moscou e sorrir [NOTA DE ATUALIZAÇÃO: Apertou e sorriu (NTs)]. O atual Chefe do Estado-maior Valery Gerasimov, não será incluído nas fotos do evento.


Por um lado, dizem as fontes, as forças russas são incomparavelmente mais fortes hoje do que eram em 1939; por outro, os norte-americanos estão incomparavelmente mais fracos em casa e nos fronts de guerra, hoje, do que os alemães em 1939. Por último, Trump não consegue nem compreender nem controlar seus generais. Hitler nunca foi tão irracional nem tão impotente.


Assim se volta à pergunta pela grande estratégia: como governar a Rússia ante a guerra da junta que governa os EUA em vários fronts? Resposta de grande estratégia – ressuscite o Comitê de Defesa do Estado (GKO), ponha a Rússia em marcha de combate e, como Stálin fez em 1941, redistribua o poder que, até agora Putin mantém centralizado nele. Militares no comando, ao estilo russo. Para compreender como trabalhava a equipe de Stálin antes, durante e depois da guerra mundial, 
leia aqui.


As provas sobre o processo de decisão coletiva que Stálin criou foram colhidas de sua correspondência pessoal e dos arquivos de seu gabinete de reuniões. Uma das regras do processo de decisão coletiva na mais alta cúpula, em tempos de Stalin como em tempos de Putin é a gestão dos pronomes de tratamento – o formal 'vy' (Вы) e o informal 'ty' (ты). Um pequeno núcleo de cinco oficiais em torno de Stálin e Stálin inclusive tratavam-se todos por ty. Eram os homens que apareciam mais frequentemente nos diários do gabinete e nos registros da dacha. Depois da guerra passaram a ser sete; depois da morte de Stálin, seis.


Atualmente há o 
arquivo oficial de reuniões no Kremlin e o arquivo secreto. Subtraia o tempo dos eventos registrados no website do presidente, do total de 8-10 horas de trabalho diário de Putin, e é evidente que mais da metade do tempo de Putin, pelo menos, é consumido em reuniões secretas.


Quanto a saber com quais oficiais ou amigos o presidente Putin usa o pronome ty em vez de vy, números e nomes praticamente jamais foram vistos em letra impressa. Segundo essa 
publicação, de dois anos passados, o ty pode estar sendo menos usado em tempos de Putin, do que foi usado em tempos de Stálin. Quantos são os íntimos ty de Putin ativos no mundo do business – seus comparsas [ing. cronies], segundo o Gabinete de Controle de Patrimônio Estrangeiro do Tesouro dos EUA [ing. US Treasury’s Office of Foreign Assets Control (OFAC) – ninguém sabe. Fontes russas acreditam que o único especialista em políticas econômicas que trata Putin por ty seja Alexei Kudrin. Vladimir Yakunin, diretor do Serviço de Ferrovias da Rússia, trocava pronomes ty com Putin até ser demitido há dezoito meses. Igor Sechin, poderoso conselheiro do Kremlin em assuntos de recursos naturais e atual chefe executivo da Rosneft, dizem as fontes, só usa vy reverente, ao se dirigir ao presidente Putin; Alexei Miller, presidente da Gazprom, já foi ouvido usando ty. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, é conhecido por ter "medo demais, de Putin, para pronunciar qualquer pronome que não seja vy".


Na manhã de 7 de abril, depois do ataque dos EUA contra a Síria na noite anterior, o serviço de imprensa do Kremlin emitiu uma declaração às 9h. O Ministério de Relações Exteriores emitiu sua declaração às 10h27. A única reunião oficial que Putin teve aquele dia, segundo o website do Kremlin, aconteceu depois do meio-dia, quando o presidente reuniu-se com os membros do 
Conselho de Segurança. Na rotina de registros das reuniões do Conselho de Segurança sempre são postadas fotos em que se veem funcionários sentados em ordem descendente de importância de cada lado da mesa, com Putin na cabeceira (na imagem, à esquerda). 6ª-feira passada contudo, só Putin aparece na foto publicada (na imagem, à direita).

 Esquerda: Reunião do Conselho de Segurança dia 31 de março – dez participantes.


Direita: Reunião do Conselho de Segurança dia 
7 de abril – nove participantes. O ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov, ausente há duas reuniões em Moscou, estava em Tashkent, para uma reunião de ministros de Relações Exteriores da Comunidade dos Estados Independentes, CEI.


Dos membros do Conselho de Segurança, só dois – o primeiro-ministro Dmitry Medvedev e o ex-chefe de gabinete do presidente Sergei Ivanov – foram algum dia ouvidos dizendo ty ao presidente. O pronome que circula entre Putin e os demais oito membros é segredo de Estado. A diretora do gabinete russo no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, 
Fiona Hill, reconheceu em seu relatório de 2013 sobre Putin que ela e suas fontes nunca perguntaram e não sabiam responder.


Agora, com as ameaças militares cada vez mais intensas que vêm dos EUA, quando crescem as pressões internas sobre Putin para que adote postura mais stalinista – aquela forma de abordar coletivamente as questões que Stálin implantou em tempos de guerra – e supere seus achaques de isolamento e indecisão, qual seria a reação doméstica, dos próprios russos, se Putin realmente andasse sobre os passos de Stálin, e o Conselho de Segurança fosse convertido em um GKO para guerra?


A resposta, segundo pesquisa nacional conduzida pelo Levada Centre em julho passado é mais positiva que negativa – e muito mais positiva do que calculam os EUA e aliados na Europa e Ásia. Para os resultados da pesquisa Levada, veja 
aqui.



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